Minha data ideal, e já um pouco tardia, era o plantio em 10 de dezembro. Pois o mês entrou com chuva e a bacteriose (Mancha Aureolada) relativamente controlada, mas com um belo estrago feito.

 


Sei que vou atrasar o plantio. O mês se inicia sem eu sequer ter aberto os sulcos para o plantio. Depois de abertos, os sulcos têm que ser devidamente preparados com a “comida” que as mudas se alimentarão nos primeiros meses, além de ser o preparo do berço inicial das raízes em formação. Mais raízes, menos estresse com secas prolongadas. Falta muito ainda.

 


E então entrei dezembro com uma decisão difícil. Eu sei que vou atrasar, mas dei um arranque nas mudas em novembro em termos de adubação, justamente para minimizar um pouco o atraso no início da implantação do viveiro, lá em julho. Agora, terei que fazer exatamente o contrário. Não sei o que é pior: colocar em campo uma muda ainda fraca, pouco enraizada, ou deixar a muda crescer além do razoável naquele pedacinho apertado de solo que é a saquinha de plantio. Até porque o café, sendo uma planta de raiz pivotante, cobra o preço de um peão “torto” no plantio, o que é muito comum em mudas que ficaram muito tempo no viveiro.

 


Logo, a melhor decisão é por reduzir a “comida” para minhas filhinhas. Mas qualquer ser vivo mal nutrido terá sua imunidadebaixa, então abrem-se as portas para… doenças!

 


Difícil decisão. Suspendi então, desde a última semana de novembro, a adubação direta. E dobrarei a adubação foliar, pois com ela vou aplicando também os defensivos. Mais ou menos como tratar um doente só no mingau de maisena e Benzetacil. Funciona, mas por pouco tempo.

 


Dezembro começou chovendo. E com outra má notícia, desta vez de ordem operacional. Eu contava com o apoio de um amigo para abrir os sulcos utilizando equipamento de ponta. Mas infelizmente o rapaz também embolou as marchas em suas operações – ele também está plantando – e assim não poderá deslocar os equipamentos e equipe para fazer o procedimento na minha área. Principalmente em áreas com relevo um pouco mais acidentado, o ideal é sulcar com auxílio de um GPS, de forma que as linhas de plantio fiquem exatamente como projetadas.

 


Para compreensão do leitor curioso: imagine uma área de um hectare. Para copiar o Bonner, um hectare é tipicamente um campo de futebol. Como se planta café? Bom, acho que todo mundo já viu imagens de uma plantadeira de grãos, como soja ou milho. Ali, por serem plantas de desenvolvimento extremamente rápido e de baixo porte, as ruas e o espaçamento entre elas são bem pequenas. Mas no café não se planta a semente diretamente – ora, estamos aqui falando da implantação de um viveiro desde junho. Em um hectare, planta-se de 2500 a 5000 mudas. Acima disso, é adensamento, que exige adaptação do maquinário. Abaixo, é desperdício de área. Há estudos que apontam para um número ótimo de 5000 plantas. O adensamento cobra o preço na forma de uma produtividade menor por planta, mas com uma população muito alta, o resultado pode até ser positivo. Mas como entrar com um trator em uma rua de cafeeiros adultos espaçados por apenas 2 metros? Só para situar dimensionalmente: um trator cafeeiro de porte menor tem cerca de 1,20 metros de largura. Um cafeeiro adulto estende sua saiaa mais de um metro. Impossível operar com o maquinário. E a operação manual, além de ser um serviço de alta periculosidade (afinal, estamos lidando com agrotóxicos), é improdutiva e muito cara. Voltando ao campo de futebol do Bonner, a conta é simples. Um hectare é igual a 10 mil metros quadrados (100 metros x 100 metros). Para saber o número de mudas, divide-se os 10000 m2 pelo espaçamento entre linhas de plantios, e se tem o equivalente em metros lineares daquele espaçamento em um hectare. Em seguida, divide-se o número obtido pelo espaçamento entre plantas, e o resultado será a população de plantas por hectare. No nosso caso, faremos o espaçamento entre ruas de 3,6 metros, o que dá ‘ 2778 metros lineares por hectare. Com espaçamentos de 60, 65 e 70 centímetros, teremos respectivamente 4630, 4274 e 3968 plantas por hectare. Em uma área de 23 hectares, serão 106500, 98300 e 91200 plantas, respectivamente.

 


Lembrando que o plantio foi de 138000 mudas, eu teria uma boa folga. Mas eu creio ter perdido muitas mudas, seja pela baixa germinação nos últimos canteiros, seja pela mancha aureolada. Desta forma, minha tentativa de aproximação das 5000 mudas por hectare fica descartada. Vamos de 70 centímetros. As aproximadamente 4000 plantas por hectare ainda são um belo número.

 


Fica clara, espero, a maior complexidade operacional do plantio, no caso do café. As ruas devem estar minimamente alinhadas, para facilitar operações futuras como combate a plantas daninhas, adubação de solo ou pulverizações. Além disso, entre plantas deve haver uma distância mínima, pois a proximidade maior prejudica o desenvolvimento da planta. Em outras palavras, entre plantas da mesma rua deve haver também uma uniformidade no distanciamento. Antigamente, plantava-se por covas: com uma ferramenta de tamanho fixo, marcava-se o ponto, e alguém com um enxadão fazia uma cova. Outro grupo vinha com o esterco, misturava com terra na cova e finalmente se plantava ali a muda. Operacionalmente, o rendimento deste método é muito baixo.

 


Evoluiu-se para o plantio em sulcos. Abrem-se rasgos profundos na terra, espaçados entre si pela distância projetada na programação do plantio. No meu caso, para otimizar a pequena área, será de 3,60 metros. Neste sulco, joga-se o produto, ou o conjunto de produtos, que fará a nutrição inicial da planta. Dizemos que é o único momento em que podemos adubar a terra por baixo. Depois do plantio, somente na superfície. Então, é um momento em que se deve optar, principalmente, por matéria orgânica, que será muito mais facilmente incorporada ao solo do que se lançada na superfície posteriormente ao plantio.

 


Uma vez que o alimentoestá devidamente distribuído no sulco, ele deve ser incorporado ao solo. Utilizam-se equipamentos especiais que batem a terra do sulco com o material disposto ali, ou um simples subsolador com dois garfos unidos para rasgar ainda mais o sulco, revolvendo a terra, numa operação de ida e volta. Fica relativamente bem misturado, além do que corta ainda mais profundamente a terra virgem, permitindo um bom aprofundamento das futuras raízes. Finalmente, deve-se fechar o sulco, geralmente com uma grade pequena somente para nivelar a terra.

 


Com o sulco pronto, passa-se finalmente para o plantio. Que pode ser da maneira antiga (mas agora o sulco já está delimitado e a terra bem fofa), ou utilizando dois métodos alternativos. No primeiro, utiliza-se uma plataforma acoplada ao trator onde se colocam as mudas já prontas para o plantio – posteriormente comentarei sobre o ritualpara o preparo – geralmente em caixas especiais. Nessa plataforma, uma pessoa vai sentada e solta uma muda por uma abertura no piso da plataforma a cada vez que um dispositivo emite um ruído. Esse dispositivo é uma roda com uma haste que aciona uma mola ou outra traquitanaqualquer, desde que a cada intervalo espacial projetado para aquele plantio. Com essa explicação, acho que mostrei algo extremamente tecnológico. Engano. É um amontoado de cordinhas, tiras de borracha e arames que chega a assustar. Eu sempre me perguntei como aquilo funciona… Falta um detalhe. Por baixo da plataforma, um dispositivo triangular vai reabrindo o sulco, desta vez bem superficialmente, de forma que a muda, quando solta pelo herói na plataforma, já cai dentro do local onde deverá ser plantada. Uma equipe vem atrás retirando as saquinhas (sim, elas deve ser retiradas, embora algumas técnicas, e muita coragem, permitem o plantio com a saquinha) e efetuando finalmente o plantio.

 


A outra maneira é utilizar um trator com um dispositivo giratório que já faz as covas no solo macio do sulco. Trata-se de uma roda com pontas espaçadas da distância do projeto, que vai sendo movida pelo trator sobre o sulco, fazendo automaticamente as covas. Um segundo trator vem distribuindo as mudas, e a equipe de plantio faz exatamente a mesma operação do plantio por plataforma.

 


Ok… por que essa lenga-lenga? Ora, dezembro abriu com muita chuva. Enquanto chove, sedimento a decisão de 3,60 x 0,70. E vou atrás de alguém que seja experiente o suficiente para fazer sulcos com um “GPS mental”. Indicaram-me o Paraguay.

 


Paraguay é um tratorista antigo, extremamente experiente, e com uma vertente McGyver no improviso da fazenda. Ele está aposentado, cuidando do neto. Mas consegui convencê-lo a me ajudar. No primeiro dia de sol, 5 de dezembro, fomos atrás do material: haste de ferro, corrente, pedaços de aço. Meia hora em uma oficina de um amigo, e Paraguay e Marcelinho irão no dia seguinte começar o serviço. Parabéns, campeão. Começando a sulcar 4 dias antes da meta de início de plantio. Desastroso.

 


Mais chuva. O serviço não chegou a terminar. Desta vez, correu muita enxurrada. O serviço que a pá carregadeira fez, os bolsões para segurar a enxurrada funcionaram, mas não foram suficientes. Subestimei a capacidade de acúmulo de água em chuvas torrenciais. Significa que em alguns pontos teremos que refazer os sulcos, e que a pá carregadeira deverá voltar. Mais gastos. Suspiro…

 


E a chuva continua. Mas próximo de 15 de dezembro, o tempo deu uma trégua e conseguimos terminar. Ficou realmente excelente. O Paraguay é mesmo um GPS humano. O cara é muito fera. Infelizmente, no momento em que nos planos iniciais eu teria terminado o plantio, eu tenho os sulcos abertos apenas. Falta muito ainda. Meu atraso será, com muita sorte, de 30 dias. Com Natal e Ano Novo. É… tenhamos fé.

 


Agora, contratar novamente a pá carregadeira, e fazer novos bolsões, ampliar um dos existentes, comandar o envio dos insumos para enchimento do sulco. Usarei um composto quimicamente enriquecido, de maneira que terei matéria orgânica e nutrientes químicos em um único produto. Ganho em tempo de operação, perco em custo. Além disso, colocarei calcário e gesso, de maneira que fique finalmente numa relação, em peso, 1:1:4 de calcário, gesso e composto. Se fizer três operações de espalhamento dos insumos, perderei muito tempo. Vamos manter a pá carregadeira e fazer a mistura fora do sulco, regulando o equipamento de distribuição para a nova relação de peso. Mais um ganho de tempo, mas agora preciso comandar o envio das carretas com os insumos.

 


Lembrando que sob chuva, tudo fica mais complicado. Gesso, por exemplo, só em Catalão. Frete mais caro. Mas é o único lugar que tem barracões fechados para garantir o produto seco. Quem atrasa sempre paga o preço.

 


Com muita dificuldade e queimando muitos cartuchos, consegui sincronizar 3 carretas, 5 caminhões e uma pá carregadeira. O tempo deu uma trégua, o que permitiu que carretas com cargas de 27 toneladas chegassem até a roça. Escutei muita reclamação dos motoristas, mas no final deu certo. Sob chuva, no dia 22 de dezembro, sábado véspera de Natal, tenho 154 toneladas de insumo misturadas e cobertas com lona.

 


No mesmo sábado, tomei a decisão de adubar novamente as mudas. Com chuva, o viveiro vinha perdendo vigor. As mudas estavam tristes, mesmo eu mantendo pulverização foliar duas vezes por semana. É a tal história… não podemos exigir vigor absoluto de um paciente tratado com soro intravenoso! É hora de adubar. Marcelinho prometeu que trabalhará feriado adentro se o tempo estiver bom. Talvez eu mantenha os 30 dias de atraso. Tenhamos fé!

 


No caminho para o viveiro, minhacabrita(uma L200 antiga com gloriosos 400mil km rodados) abriu o bico. Ferveu. Grande presente de Natal. Suspiro. Mas adubei as bichinhas. Feliz Natal, mudinhas!

 


No intervalo entre os feriados, muita chuva. Não aquelas invernadas, mas pancadas fortes que inviabilizam a operação em campo. Lembrando que temos que regular a adubadeira, numa operação bem complexa, por envolver muitos pontos de erro.

 


Mas a chuva não deixou. Chegamos a ir duas vezes à fazenda entre o Natal e o Ano Novo. Mas não conseguimos operar com um mínimo de segurança. Trator escorregando, insumo molhando, e alterando a relação de peso, fundamental para a regulagem da quantidade. Enfim, inviável.

 


A notícia boa é que as mudas responderam muito bem à adubação. Estão mais vívidas, e com um verde muito menos amarelo! Como imaginei, a injeção de alimento fez com que mesmo as mudas prejudicadas pela doença revigorassem, apresentando bom índice vegetativo. Algumas realmente simplesmente desistiram. Bem, RIP, mudinhas.

 


Não será dia 10 de janeiro. Vou atrasar mais. O atraso certamente vai significar uma produção menos espetacular na primeira safra, daqui a 2,5 anos. É o preço do meu atraso. Infelizmente, terei que conviver com esse problema. Quanto mais tardio o plantio, menor o arranque inicial da planta, seja pela redução do tempo de insolação diário – os dias já estão diminuindo desde 21 de dezembro! – seja pela preocupante redução do período chuvoso. E eu não terei capital para irrigar imediatamente após plantio.

 


Crowdfunding?…

 


Feliz Ano Novo.