Diário de bordo – muita chuva (novembro/2018)

 

Como pode um produtor rural reclamar da chuva? Bom… nesse caso específico, sou um pré produtor. A chuva sempre é bem vinda. Mas não quando estou gradeando ou sulcando, ora!

 

Novembro começou. Muita chuva. O Marcelinho até tentava, mas realmente não dava pra trabalhar por dias seguidos. O tempo passando…

 

A parte boa é que fiquei semanas sem irrigar o viveiro. Bom que me tira o compromisso de fazer essa operação. Mas ruim porque as coisas param de maneira definitiva na fazenda. Meu planejamento inicial já estava praticamente furado antes de terminar a primeira quinzena de novembro.

 

E então vem outra bomba. Não, não é ao trator de esteira, aquela tranqueira amarela, que continua parada. Dias seguidos sem sol e umidade excessiva abriram as portas para doenças típicas desta época. E a debilitação das plantas levou a outra doença, muito pior.

 

A umidade excessiva cria condições ideais para fungos que são o terror dos viveiros: doenças como Phoma começaram a aparecer por causa dos longos períodos de chuva persistente, e da falta de sol. As manchas pretas começaram a aparecer, e o excesso de chuva não deu prazo para combate. Até tentei, mas realmente não havia prazo para pulverização. Fiz pelo menos duas pulverizações em que a chuva praticamente lavou minutos depois.

 

O pior é que a planta debilitada abre-se para outra doença, na minha opinião até mais danosa: a bacteriose, ou mancha aureolada, causada pela bactéria Pseudomonas syringae. Muito semelhante a uma doença fúngica, a mancha aureolada se destaca por um halo amarelo em torno da lesão escura na folha. Atacada, a folha simplesmente se degenera, quase se dissolve, formando reboleirasque, quando não tratadas, vão aumentando numa velocidade muito grande, principalmente em viveiros, dada a proximidade entre as plantas.

 

Como sugestão, além de diversos produtos bactericidas, alguns à base de cobre, o Luiz, agrônomo da Cooxupé, sugeriu que eu retirasse o sombrite ainda na primeira quinzena de novembro. A retirada do sombrite faz parte de uma operação de aclimatação da planta. No viveiro, as plantinhas têm uma vida relativamente boa. Água, substrato preparado, alimentação foliar, remédio “na boquinha” e uma temperatura boa para essa fase do desenvolvimento, sem incidência direta do sol. A aclimatação é necessária para que a planta se prepare para a realidade que virá: sozinha, numa terra mais hostil, exposta a pragas e com incidência direta do sol. Assim, o viveirista sempre remove o sombrite para que a planta já esteja, pelo menos, aclimatada com o sol bruto que virá nos meses de verão, no pós plantio. Assim, o Luiz sugeriu eu antecipar a aclimatação, de maneira que o sol fosse meu aliado no combate à bactéria.

 

Quando finalmente o tempo firmou um pouco e pude aplicar os defensivos específicos para essa doença, com o sol ajudando na assepsia, já era um pouco tarde. Eu diria que, se perdi cerca de 20% por falta de germinação, perdi outros 20% para a mancha aureolada.

 

É interessante… em um outro plantio que fiz em 2013 (naquele não cometi a insanidade de fazer meu próprio viveiro), tive um ataque de bacteriose nas mudas recém plantadas. Muitas ficaram apenas a haste quase seca. Naquela época, depois de tentar vários meios de controle sem sucesso, apliquei um produto que se apresenta como Fertilizante Foliar, mas que curou a doença e fez rebrotar plantas que eu já havia dado como mortas. Infelizmente não encontrei no Brasil o representante atual do produto. Se arqueólogos do futuro encontrarem esse texto, registre-se que esse produto, chamado Pulitore, realmente é efetivo contra essa doença, já que os tratamentos tradicionais são quase paliativos. Cheguei a levar essa questão para professores, que se recusaram a aceitar que o produto fosse realmente efetivo, já que tinha a meu favor apenas meu testemunho. Alguns alegaram que era apenas uma percepção errônea de minha parte: como eu havia entrado com tratamentos tradicionais, eles disseram que, provavelmente por mera coincidência, a calda com Pulitore aparentemente resolveu o problema, quando na realidade teria sido ação dos produtos tradicionais aplicados anteriormente.

 

Ok, quem sou eu para contestar a Academia? Mas isso me lembrou outro caso interessante que ocorreu comigo. Quando era adolescente, fui acometido por uma erupção na pele das costas que me deixava maluco pelo tanto que coçava, e que crescia dia a dia. Fui em dois médicos em Belo Horizonte, que receitaram pomadas e outros produtos, que simplesmente não funcionaram. A lesão só crescia e coçava. Como coçava… meu alívio era raspar as costas até ferir em muros de chapisco. Até que vim em férias para Monte Carmelo e mostrei para minha avó. Ela diagnosticou imediatamente: cobreiro! No mesmo dia, me levou a uma benzedeira. Só da santa mulher cercar a lesão com talos de mamoeiro, já fui sentindo alívio enquanto respondia: “O que é que eu corto? Cobreiro bravo!”

 

Foram três sessões, embora na segunda já nem coçasse mais, e a lesão se resumia a um pequeno ponto no local original onde havia começado. Nunca mais tive isso. Quando questionei um dos médicos, ele cravou: “É que o meu remédio começou a fazer efeito”.

 

Ok, jo no creo em brujas, pero que las hai, las hai.

 

Sendo assim, use Pulitore. Quem me dera eu tivesse!

 

Você leitor deve estar se perguntando: porque diabos esse cara está aí divagando até sobre benzedeiras? Amigo, esse foi o tom de novembro. Dias e dias de chuva mansa, abençoada, mas que não só proliferava a bactéria no meu viveiro, mas também dava folga forçada ao Marcelinho.

 

O tempo passando, quem conseguiu preparar a terra e plantar antes todo satisfeito por aproveitar um dos novembros mais chuvosos dos últimos anos. E eu quase parado, com uma doença devastadora destruindo minhas mudas.

 

Uma coisa útil que fiz foi tirar um domingo que não amanheceu chovendo e levar quatro pessoas para a roça. Fomos os cinco andando criteriosamente buscando formigueiros de saúvas, a famosa “formiga cabeçuda”. Cansativo, mas extremamente importante. Em um terreno com nenhuma vegetação, as formigas ficam simplesmente famintas. Mesmo o café não sendo a refeição preferencial das formigas cortadeiras, elas destruirão a lavoura se não houver outra planta para atacarem – e definitivamente não há. Assim, o controle químico é simplesmente fundamental. Caso contrário, não há como ter sucesso no plantio.

 

No viveiro, consegui segurar um pouco a doença. No preparo da terra, pouco fiz além de nivelar o terreno e construir bolsões, levando outra Pá Carregadeira para o serviço. Tive que vender um implemento para fazer frente a esses gastos.

 

E a tranqueira amarela lá, impávida e desafiadora, quase gargalhando sempre que me vê, como se dissesse: tire-me daqui se for capaz...