Diário de bordo – expectativas boas e ruins (agosto/2018)

 

Faz frio. Há bruma. Agosto vai em meio.

E eu poderia jurar – bendito engano

que a primavera veio

antes do tempo esse ano.

Folhas Soltas – Vicente de Carvalho

 

Dona Neide foi uma professora de Português do primeiro grau, no saudoso Colégio Padre Machado, que tinha uma sutileza paquidérmica para ensinar. Mas como ensinava! Não se podia dar um pio em sala, e ela nos obrigava a decorar poemas, regras, conjugações irregulares, pronomes e toda a sorte de pegadinhas da língua pátria… “Os pronomes relativos substituem a palavra que vem antes deles, e têm obrigatoriamente uma função sintática.” Bastava ela nos apontar na sala de aula, em meio ao silêncio, e iniciar uma de suas frases “Os pronomes relativos são: que, qual, cujo, onde, quem, quanto.”Ai de quem não soubesse complementar a frase que ela começava. Vicente de Carvalho era um de seus preferidos para ilustrar o Parnasianismo. E tome decorar poemas!

 

Saudades. Credito à Dona Neide minha posterior e questionável facilidade para escrever. Posso ser mal escritor, mas sei que o gosto por sentar à frente de um papel (àquela época; hoje um computador) e sair escrevendo minhas potocas foi alicerçado por ela e construído, já no segundo grau, pela Ângela, do Pitágoras. Minhas divas, dádivas do meu aprendizado. Amo vocês, professoras, onde quer que estejam. Ah, sim, Ângela… “professoras”, na frase anterior, é um aposto.

 

Pois bem, agosto vai em meio, e nada ocorre. Até hoje enrolado com o contrato, e não posso, ou não quero, mexerna terra enquanto não tiver o contrato registrado em mãos, e o respectivo Cartão de Produtor Rural emitido, documento que me permite adquirir produtos e posteriormente acertar as contas com o Leão. Os canteiros estão fechados, para minha angústia. Não consigo aceitar que aquilo pode funcionar.

 

Depois de ter todas as saquinhas semeadas e encanteiradas – bom, na verdade elas já nascemencanteiradas; a semeadura é que é feita quase de joelhos, um por um, duas sementes por saquinha – o Carlinhos molhava bastante o canteiro, dobrava sombrite sobre ele e cobria tudo com lona preta. O sombrite preveniria que a lona aquecida pelo sol tivesse contato direto com a semente em germinação, para evitar o cozinhamento, segundo o Carlinhos. E a lona garantiria que a umidade seria mantida ali dentro daquela estufa. Para mim, é forno.

 

Quando afirmo que o Carlinhos molhava o canteiro, tenho que dar meus créditos. Ele montou uma estrutura bastante precária. O que, a princípio, seria péssimo, tem que ser analisado sob a ótica do pragmatismo. O canteiro terá uma vida de apenas 4 meses. Logo, não faz sentido ter custos mais altos. Assim, são apenas mangueiras finas lançadas ao longo dos canteiros, suspensas por arames, com aspersores dispostos em espaçamento empírico. Entopem sempre, às vezes rompe-se uma sustentação e toda uma linha de aspersores vai ao chão. Mas funciona. Mais um ponto para o Carlinhos.

 

Agosto vai em meio. Da primavera que teria vindo mais cedo esse ano, temos apenas o calor excessivo, um sol de rachar, e os ipês floridos.

 

Choveu no início do mês. Passou de 30 mm em algumas regiões. Isso não é bom para o produtor. Além de muitos ainda estarem com o café de chãopor recolher, o mercado entende que isso dá uma folga para as lavouras, garantindo a produção do próximo ano. E o preço do café despenca. Além disso, para aquelas lavouras que estão mais adiantadas, vai haver floração. Funciona assim: desde abril, com a entrada do outono, o cafeeiro começa um processo fisiológico que chamamos Diferenciação Floral. Em cada nó dos ramos produtivos, pequenas gemas se formam, e nessa época decidemse elas darão novos ramos produtivos ou botões florais. Essadecisãodepende de vários fatores, como o estado nutricional da planta, o crescimento vegetativo ocorrido durante todo o período anterior (primavera e verão), entre outros. As gemas que formarão botões florais vão se desenvolvendo pouco a pouco, até chegarem a um estágio pré abertura, que chamamos grão de arroz pela sua semelhança. E aqui a atividade mostra a sua absoluta complexidade de manejo: o tempo frio do inverno, associado a pragas e doenças oportunistas, conjugado com o processo de colheita, que é absolutamente estressante para a planta porque gera muita desfolha, deixou o cafeeiro pelado. Sem água para o reenfolhamento, e eventualmente com as noites frias de agosto que não auxiliam o metabolismo, e ainda por uma situação nutricional geralmente deficitária – ora, durante a colheita dificilmente o produtor terá tempo de efetuar adubações, e a falta de água exige que o processo seja feito de forma muito técnica, para não perder o produto – muitas lavouras encontram-se desfolhadas, mal nutridas, e com florada pendente. A chuva dispara na planta a abertura da florada. E teremos ainda dois longos meses de chuvas irregulares ou mesmo deficitárias.

 

O cafeeiro é resiliente. Ele eventualmente consegue segurara florada mesmo em condições adversas. Mas tudo tem um limite. Temo pelos produtores que não possuem irrigação para segurar essa florada precoce que certamente virá em muitos cafezais.

 

Mas voltando aos nossos canteiros. Os dias estão ficando cada vez mais quentes, embora algumas ondas de frio tenham chegado à região cafeeira. Duram dois ou três dias. Aquelas estufas continuam me angustiando. Carlinhos verifica com alguma frequência a umidade dos canteiros, e extrai algumas sementes para verificar a germinação. Aparentemente as coisas estão correndo bem, mas não consigo imaginar um ambiente bom sob uma lona preta em sol de 30°C.

 

Por duas vezes ele destampou os canteiros e irrigou, voltando a tampar. Mesmo vendo as sementes já soltando as radicelas, ainda fico desesperado. Agosto tem sido um longo mês. Previsão para a abertura dentro de mais uns 15 dias, em torno de 10 de setembro. Quem ditará o timingserá obviamente o Carlinhos. Segundo ele, será quando as sementes formarem joelhos, antes do palito de fósforo. Entendo a visão dele… inicialmente, a semente solta uma radicela. Posteriormente, ela cria um pequeno caule que elevará os cotilédones que formarão as orelhas de onça, que nada mais são que folhas rudimentares, de onde a plântula extrai seus primeiros nutrientes. Eu diria que o canteiro está em fase de pré emergência. O difícil é saber qual será a taxa de germinação.

 

Mais um ano sem geadas significativas. Ocorreram chuvas esparsas. A florada de fato veio. Não deve ter sido a florada mais significac ctiva do ano, mas alguns produtores estarão em maus lençóis com lavouras desfolhadas e floridas. O sol pode cozinhar parte da safra 2019.

 

Café despencando de preço com o pico da safra. Já aproxima de R$400, que seria um piso abaixo do qual aqueles produtores menos estruturados passarão por grandes dificuldades.

 

Fica a reflexão. Todos nós, produtores de café, barrigamos nossas dívidas para a safra. Que é, via de regra, o ponto de preço mais baixo historicamente, dada a oferta de produto causada pelo afã de quitar as dívidas. Quem não se planeja, realmente acaba vendendo sua produção no pior momento. O especulador agradece.

 

A propósito, o contrato está devidamente registrado. O Cartão de Produtor depende da burocracia estadual, nesses tempos de Minas “progressista”...

 

Que setembro traga chuvas e um belo e vigoroso viveiro.