Depois de um setembro pesado, achei que as chuvas de outubro entrariam me trazendo dias melhores.

 

Não posso reclamar. Embora irregulares, há chuvas. Isso me dá uma trégua no viveiro. Mas a cisterna que sobrou ainda dá sinais de pouca vazão. Geralmente, outubro é o mês de menores níveis de águas subterrâneas. Mesmo com um pouco mais de chuvas, elas não são suficientes para percolar o subsolo e realimentar o já sofrido e explorado lençol freático.

 

Mas a água nem é o meu maior problema. Antes de chorar um pouco, vamos às decisões de plantio.

 

Pela evolução que o canteiro apresentou até agora, é possível que o Carlinhos esteja certo. As mudas estarão em ponto de plantio a partir de 10 ou 15 de dezembro. Assim, tenho que fazer as coisas acontecerem até lá.

 

O que ainda falta preparar a terra a essa altura? Bom, quase tudo. O terreno já está gradeado, mas ainda tenhos pelo menos as seguintes operações: gradeação de nivelamento, pelo menos duas passadas; sulcar, ou seja, abrir o que serão as ruas de plantio; encher o sulco, distribuindo os nutrientes ao longo dos sulcos (esterco, muito esterco, complementos minerais, principalmente fósforo, calcário, se necessário e gesso agrícola); fechar o sulco, e então plantar.

 

Medi o terreno no GPS. Depois de retirados os locais onde serão erguidas benfeitorias (casa, galpão, terreiro de secagem de café) e algumas pontas onde a mecanização fica inviabilizada, restam 23 hectares. E ainda tenho que fazer bolsões para reter a enxurrada. Será, ao final, uma lavoura de pouco mais de 22 hectares. Pequena, afinal. Mas, fazer o quê? Como dizem por aí, é o que temos para o momento.

 

Só que essas operações… custam. Eu poderia eventualmente fazê-las. Sou operador de máquinas agrícolas meio bissexto, mas acho que dedicando muito eu adiantaria esse serviço. Gradear não me exige nenhum grande conhecimento ou habilidade. Já sulcar certamente demandará ajuda dos universitários. E eu estou realmente sem grana.

 

Para complicar, desde o final de setembro minhas outras atividades estão consumindo o tempo que não tenho. Houve demanda para instalação de oito estações linimétricas na região do PADAP, em São Gotardo/MG. As dificuldades de se trabalhar no campo bruto vão da ausência de sinal de celular a escaladas de terrenos bastante íngremes para chegar ao melhor local. Parece fácil, mas acrescente nesse cenário um touro um pouco ciumento com nossa proximidade de suas vaquinhas com inúmeras viagens de areia, brita e cimento para fazer a infraestrutura das estações. Daria uma novelinha à parte. Mas vou poupar o leitor disso agora.

 

Além das constantes viagens a São Gotardo, tenho ido bastante a BH para atender a um outro projeto na área hídrica.

 

Sem dinheiro e sem tempo, a única coisa que aconteceu de verdade em outubro foi a evolução das mudas. O Carlinhos fez o repiqueque expliquei no mês passado. Claro que algumas não vingam, mas realmente o cara é bom. Eu diria que entre 80 e 90% de sucesso foi atingido. Mas não houve repique suficiente para cobrir os canteiros finais.

 

Para quem for fazer o seu próprio canteiro, ficam as minhas suposições para que os mesmos erros não sejam repetidos. Por vários fatores, dentre eles minha falta crônica de grana, o plantio foi um pouco mais lento do que gostaria. Isso deixou um prazo entre os primeiros e os últimos canteiros um pouco longo demais. Resultado: quando os primeiros canteiros já tinham germinado e exigiam descobrir a lona e montar o sombrite, os últimos ainda demandariam uns 10 dias de estufa. Mas operacionalmente isso seria complicado. Então, como primeira dica: faça os canteiros o mais rapidamente possível. Se algo der errado, planeje uma estratégia que permita a descoberta apenas da parte mais adiantada.

 

Além disso, coincidentemente os últimos canteiros ficaram mais suscetíveis a ventos. Por mais que tenhamos tentado vedar as laterais das lonas, era comum naquelas ventanias típicas de agosto e setembro, vermos as lonas estufadas, sinal que o ar seco externo estava ali fazendo um estrago na umidade quente que a semente demanda.

 

Antes de culpar o Carlinhos, vamos deixar claro. Desde que os canteiros foram tampados, a primeira etapa combinada com ele foi devidamente cumprida e acertada. Para as operações posteriores, ele me solicitou um determinado valor que realmente eu não teria como bancar. Na minha inocência, achei que eu conseguiria apenas o chamando na base da diária. Outro erro meu. Nas minhas ausências, eu deveria ter mantido as lonas bem vedadas. Mesmo o Carlinhos fazendo duas operações de rega, acho que faltou meu acompanhamento mais próximo. Assim, fica a segunda dica: acompanhe sempre a umidade.

 

E é interessante: nos canteiros mais sofridos, até hoje aparecem plantas germinando. Sinal de que o problema não foi de plantio, mas de condições de germinação.

 

Na reta final do mês, joguei a toalha e combinei com um rapaz para efetuar as operações na fazenda. Passei praticamente outubro inteiro sem mexer na terra. Perdi um tempo que pode ser irrecuperável. Mas ainda é possível. Temos aqui mais um personagem: o Marcelinho. A história desse rapaz é interessante. De origem humilde, sempre trabalhou na roça. Nos últimos anos, formou em Agronomia pela UFU (sim, uma Universidade Federal!), mas não teve sorte na caminhada profissional. Começou a trabalhar em uma revenda, exercendo papel de vendedor/consultor. É uma atividade insana. Imagine o técnico academicamente bem formado vendo a necessidade de aplicação de determinado produto em uma lavoura, que ele não possui em carteira. Ora, ele tem que bater metas. Então… ou ele vende seu produto, mesmo sem ser o mais indicado, ou sugere outro que não pode comercializar. Ganha o amigo e perde a comissão ou faz a venda e corre o risco de deixar a batata quente na mão do produtor? Não conversei com ele a respeito, até porque não quero nem posso, fazer nenhum juízo de valor da empresa que o contratou. Mas é fato que ele não se adaptou à função e estava desempregado. Ele já havia sido personagem deste relato: foi o rapaz que colheu as sementes para mim lá em maio, quando eu ainda achava que plantaria 30 hectares.

 

Meu planejamento: 8 a 10 dias nivelando, 5 dias sulcando, 8 a 10 dias preparando. Isso me dá um total de 25 dias, ou um mês cheio. Faltam 45 dias para minha previsão otimista de plantio. Ainda dá.

 

Resta combinar com São Pedro.

 

A propósito: a máquina ainda está lá. Um paquiderme amarelo lembrando-me que preciso tirar aquela tranqueira dali. Já fiz a bomba hidráulica e o radiador. Mas falta o arranque.