Começo julho com um misto de receio e esperança. Receio porque vou fazer um viveiro. E sem destino para as futuras mudas. Já não bastassem todas as variáveis sobre as quais pouco temos controle, estou agora no MST: não tenho terra pra plantar as mudas. Poderia até procurar futuros clientes, mas ainda existe uma (pequena) chance de conseguir alguma terra. Ainda há tempo de sobra para o preparo da terra.

E esperança justamente porque, na pior das hipóteses, em janeiro de 2019 poderei acrescentar em meu currículo que já toquei um viveiro. Não um grande viveiro, mas algo respeitável. 150Mil mudas não é pouca coisa. Devo ocupar uns 1200 m2.

Começo o mês finalizando o preparo das sementes. Finalizamos a seleção das boas sementes, a retirada de impurezas, cascas, moquinhas, peneiramento, etc. Tão logo estejam secas e prontas, darei um banho com algum preparador de sementes – dica de um guru, Luiz Donizeti, agrônomo da Cooxupé e grande companheiro. Vou verificar com meus parceiros se posso colocar nomes comerciais aqui, mas se pretendo contar a história, não posso omitir tais informações. Usei o produto Maxim®, da Syngenta®. Puristas dirão que tal produto não tem registro para café. Ok. Confesso meu pecadinho. Vida que segue. O produto deixa as sementes vermelhinhas. Sem nenhum viés político, é a melhor forma para eu não cair em tentação e preparar um espresso só com grãos peneira 17 acima...

Começam os trabalhos. Primeiro, uma pá carregadeira para retirada de 2 caminhões de entulho – a área é emprestada, mas não está toda limpinha e aplainada. Comprar barras de cano, caixas d’água, mangueiras, bailarinas (microaspersores). Comandar o envio da terra e do esterco. Comprar o adubo de plantio – também não posso deixar de mencionar o produto: Cyclus® Substrato, da Café Brasil®. Muito caro, mas muito eficiente. Vale o custo/benefício. Novamente, receita do guru Luiz.

Cabe aqui um comentário. Geralmente, utilizamos a própria terra do local onde implantamos o viveiro. Mas nesse caso eu não tinha opção. Além de não poder fazer um empréstimo no local, há tubulações e cabos de energia enterrados. Mais um custo. Paciência.

Primeiro grande prejuízo. Gasto completamente inesperado. O caminhão de esterco, ao entrar no local – é um grande terreno cercado por muros, com um portão metálico pelo qual já entraram vários caminhões de terra e a própria escavadeira –, derrubou o portal que sustenta o grande portão metálico. Não bastasse, trouxe consigo parte do muro e amassou bastante o portão. Minha única vingança foi fazer o motorista dormir no local de guarda, pois trata-se de terreno particular, e ele é cercado não é à toa... custo do conserto, nos três dias subsequentes: R$2600 – pedreiro, servente, areia, tijolo, ferragem, serralheiro. Custo do caminhão de esterco: R$1800. Típico caso de molho mais caro que o peixe. Bem vindo ao mundo do produtor/empreendedor. Claro que muitos pensarão: “mas ele pagou o prejuízo, não”. Não. Claro que não. Existe uma crença tácita, uma herança macunaímica no país, em que esse tipo de acidente é culpa do contratante. Ele estava trabalhando, tinha fé que tudo daria certo, é pobre, está com a prestação atrasada... já eu sou rico, obviamente, e como ele tinha fé, possivelmente eu é que não tinha. Prazer, empreendedor brasileiro.

Mais máquina para fazer a mistura terra/esterco/substrato (70%, 30%, 2.5kg por m3). Saquinhas já compradas – fornecedor avisa que vai faltar; consigo apenas 80mil. Pessoal começa amanhã.

Trabalho andando bem. Um enchedor de saquinho trabalha em meio à poeira, sentado no chão, e faz cerca de 6000 saquinhos por dia, já devidamente encanteirados. É uma máquina de repetição ao som do rádio sertanejo.

Boa notícia, hoje. Um rapaz me procurou para eu conhecer uma área que ele comprou, recém aberta. Área virgem, em uma região pouco explorada para café. Relativamente pequena – entre 25 e 30 hectares, menor que o meu módulo ideal – mas ainda razoável. Segundo ele, tem água. Resta ver o relevo, a altitude... amanhã saberemos.

De fato, a área não é ruim. Altitude entre 780 e 820 metros. Um pouco descaída para meus sonho, mas um belo córrego, com bastante água mesmo a essa altura (estamos em meados de julho). Não possui nenhuma estrutura; tudo por fazer. Energia está a cerca de 200 metros, no terreno vizinho. Diz a lenda que, se começar a construir uma residência, pode-se solicitar a energia, pelo projeto Luz Para Todos da Cemig. Não confio em promessas, principalmente estatais.

Preço irredutível: 4 sacas por hectare. Aceita menos nos dois primeiros anos – é praxe no arrendamento de café: os primeiros anos são de investimento; a produção ocorre no terceiro ano, 30 meses após o plantio. Serão 10 sacas de soja por hectare nos primeiros dois anos.

É muito investimento. Casa, energia, estrutura mínima para brigo das máquinas. Preparo da terra, correção do solo, esterco, sulcagem, muito esterco, adubos de plantio, mão de obra, mais esterco.

Estou ficando doido. Vou encarar. Lá na frente faço um crowdfunding, quando a grana acabar – sim, ela vai acabar antes. Caramba... não é tão má ideia...

Burocracia. Contrato. Alteração do contrato. Reconhecer firmas do pai, da mãe, do cachorro do mecânico do vizinho. Bem vindo ao Brasil, o país do paraíso dos cartórios.

Mês voando. Alguns contratempos, plantio das sementes começando no final do mês. Previsão de fechamento dos canteiros para os primeiros dias de agosto. Estou atrasado. As mudas sairão ao final de dezembro. Suspiro... desistir não é mais opção.

Todos os dias, ao final dos trabalhos, preparo pessoalmente uma calda de Monceren® da Bayer®, com Stimulate®, da Stoller®. Deixo as sementes de molho por mais de 12 horas. O Moncerem previne doenças fúngicas na planta recém germinada (ok, o Maxim® deve fazer isso também, mas é receita do Carlinhos, o plantador; tenho que respeitar, pois ele é o cara do viveiro). Já o Stimulate deve liberar na semente a vontade de germinar.

É impressionante a velocidade de plantio. O Carlinhos exige que somente ele faça o plantio, para que as sementes fiquem sempre na mesma profundidade, garantindo homogeneidade de germinação. É mais uma máquina humana trabalhando na poeira.

O espaço não vai dar para as 150mil mudas que eu previra. Deve dar entre 130mil e 140mil. Sem problemas, a princípio, pois a área, sendo de 27 hectares, e com 5200 plantas por hectare, já com a folga do replantio e perdas em torno de 10%, daria 140mil mudas no total.

Agora serão uns 40 dias de tensão... as sementes que praparamos algo que nunca fizemos, germinarão? Carlinhos garante que sim, que nunca viu sementes tão boas. Espero que ele não esteja apenas afagando o contratante...