Em paralelo aos textos que iremos desenvolvendo neste espaço a respeito da lavoura do café, faremos uma espécie de diário da implantação de uma lavoura. Será uma oportunidade de documentar o dia a dia da implantação em si, para que o leitor possa acompanhar todos os detalhes, e mesmo interagir, sugerir novas abordagens... enfim, trocar ideias. Nossa ideia é produzir um texto por mês durante toda a implantação, mostrando os detalhes, as dificuldades, as grandes decisões.
A busca por uma área viável para implantação tem alguns critérios objetivos, sobre os quais ainda escreveremos mais detalhadamente.

Mas tipicamente estamos em busca de uma área para arrendamento desde o final da safra anterior – outubro de 2017. A aquisição está fora dos planos por indisponibilidade financeira: terras nuas estão muito caras nessa região do cerrado mineiro, justamente pela expansão do café.

Algumas premissas de localização e tamanho devem ser consideradas. Procuramos área num raio de cerca de 40km de Monte Carmelo/MG, com tamanho entre 30 e 50 hectares – abaixo disso começa a ficar financeiramente inviável o investimento devido aos custos fixos, e acima disso geralmente são necessários novos investimentos e mais mão de obra. Consideramos, assim, um módulo de produção ideal em torno de 40 hectares.

O maior problema passou a ser, nos últimos anos, o aumento absurdo no custo da terra, mesmo para arrendamento. Há cerca de 5 anos, era comum arrendarmos terras boas por cerca de 3 sacas de café por hectare. Aqui cabe uma explicação: geralmente, nossa moeda é “saca de café”. Assim, arrendamos geralmente nessa “moeda”, pois já saberemos de antemão o custo da terra arrendada, e poderemos planejar tudo sobre a única variável que realmente conseguimos algum controle: a produção (talvez o melhor termo seja produtividade). Geralmente não temos o menor controle sobre os preços de insumos, taxas de juros ou valor de venda do produto. Mas podemos melhorar os nossos processos e conseguir algum incremento de produtividade!

Atualmente, há proprietários pedindo 6 sacas por hectare. Recentemente, um proprietário de uma área excepcional chegou a me pedir 7 sc/ha. A área realmente é excelente. Mas não me contive e perguntei se ele assinaria minha carteira de trabalho. Perdi a terra, óbvio. Ocorre que os preços do café têm estado abaixo do histórico recente. Há cerca de dois anos, chegamos a trabalhar com preços futuros de R$700 para a saca de café para a safra 2018. Com isso, muitos colegas produtores se aventuraram em áreas a 5 ou até 6 sacas por hectare, uma vez que esse nível de preços é extremamente remunerador. Claro que o mercado de commodities não funciona como queremos. Muita gente vendo bons preços, muitas gente plantando mais, maior produção a vista e... preços menores no radar! Atualmente, trabalhamos com algo em torno de R$460. Ainda é remunerador, mas tenho pena de quem arrendou a 5 sacas ou mais...

Diante dessa pressão, nossa meta é conseguir uma área cujo proprietário aceite algo em torno de 4 sc/ha ou menos que isso. Em nossa opinião, acima disso é uma aposta muito alta, a não ser que a área já possua alguma estrutura e não sejam necessários investimentos quase imprescindíveis como estruturas de irrigação (captação, reservatório), casas para funcionários, galpões, terreiros de secagem etc. Caso se apresente uma área com esse tipo de infraestrutura já presente, a decisão passa a ser financeira (investimento inicial necessário x custo maior do arrendamento). E abaixo disso é quase impossível.

Atualização de final de mês: apareceu uma área muito interessante a cerca de 30 km de Monte Carmelo, sendo 10 km em estrada de terra. São 35 hectares, um pouco mais acidentados do que gostaríamos, mas ainda assim perfeitamente mecanizáveis. Há uma oferta razoável de água. O
proprietário aceita 4 sc/ha. Vamos começar a adquirir sementes e outros insumos e planejamentos para a logística de implantação do viveiro de mudas.

Diário de bordo – implantando um viveiro (junho de 2018)

Fazer um viveiro de mudas pode ser um ótimo ou um péssimo negócio. Mas não apenas a motivação de fazer esse acompanhamento para nosso projeto nesse espaço, mas também a possibilidade de uma bela economia no custo final de implantação nos impulsionaram a essa aparente loucura. No momento em que escrevo isso, confesso que realmente é!

A motivação financeira é evidente. Um milheiro de mudas para retirar no viveiro gira em torno de uma saca de café (nossa moeda é saca de café!). Isso é hoje R$450 – o café está caindo com a proximidade da safra. Para implantar, elaboramos uma planilha de custos que aponta a algo em torno de R$200; com uma margem para o Imponderável de Oliveira, teremos um custo em torno da metade, além de poder fazer a estrutura no próprio local, economizando no frete entre o viveiro e a futura lavoura. Claro que o risco é todo do novo viveirista: doenças e pragas, insetos, fungos e bactérias. Gente para o serviço pesado: encher saquinhos de mudas é realmente um serviço difícil. Gente para o serviço leve. E tome mão de obra. E mais material: saquinhas, sombrite, adubos, esterco, etc.

Mas há ocorrências não tão raras assim de quem optou pela tranquilidade de comprar as mudas prontas, fazer um contrato com um viveiro (geralmente com um adiantamento em R$ de cerca de 50% do preço final – o viveirista usa isso no investimento da estrutura), e ter a surpresa de suas mudas simplesmente não ficarem prontas no prazo, seja por erro do viveirista, seja por intempérie (uma chuva de granizo que destruiu o viveiro), seja ainda por lguma doença que tenha devastado as mudas. Nesses casos de terror, o produtor perde a entrada, compra mudas muito mais caras de outro viveiro (por não ter feito a encomenda prévia), pega mudas ruins – o fundo do viveiro, ou simplesmente desiste da empreitada, com todos os prejuízos associados.

De fato, a cafeicultura é arriscada!...

O contrato já está pronto. Já assinamos e encaminhamos para o proprietário. Tempo de correr atrás de sementes. Dado o tamanho da área, optamos por um espaçamento mais agressivo, buscando algo em torno de 4500 plantas por hectare. O que seria um espaçamento conservador? Bom considero conservador aquele que implanta a lavoura em ruas de 3.80 a 4 metros, com espaço de 70 a 80 cm entre plantas, conforme o porte da cultivar, o que daria de 3125 (4.0 m x 80cm) a 3750 (3.8 m x 70cm) plantas por hectare. Acima disso é, sinceramente, desperdício.

E considero agressivos espaçamentos menores, até 3.5 metros entre ruas e 60 cm entre plantas, o que daria 4760 plantas por hectare. Os espaçamentos menores entre plantas somente são viáveis quando a cultivar é de porte menor, como Catuaí e seus derivados. Espaçamentos menores entre ruas trazem complicações com a mecanização, pois as ruas ficam estreitas para o maquinário. Já se plantou lavouras com espaçamentos de 2.0 metros entre ruas. Mas isso numa época em que a mão de obra era farta e barata. Essa estratégia era usada para garantir grandes produtividades iniciais, para posterior remoção das ruas intermediárias, deixando o espaçamento final em 4.0 metros. Ganha-se no início, com alto custo de mão de obra, mas perde-se ao remover 50% de uma lavoura em franca produção.

Em nosso projeto, usaremos porte baixo (cultivares IPR100 e Topázio), e espaçamento de 3.5 m por 60 cm.

Um produtor amigo fez um “banco de sementes” em sua propriedade. Ele tem, dentre outras, exatamente as cultivares que queremos. E permitiu que eu fizesse a colheita seletiva para a produção de sementes. A lavoura dele está realmente muito boa e fornecerá sementes excelentes. O difícil é prepará-las.

Antes, fizemos uma pesquisa de mercado em entidades fornecedores de sementes. Não havia disponíveis. Vamos mesmo ter que produzir nossas próprias sementes.

Continhas básicas... 35 hectares a 5200 plantas (folga de 10% para replantio e perdas gerais) dá cerca de 180 milheiros. A ideia é produzir 250 milheiros, e vender para amigos, a preços menores, a produção adicional, de maneira a amortizar o investimento. Já que há custos fixos, estas 70 mil mudas adicionais não significam um incremento tão grande no investimento (cerca de 30%), mas podem amortizar até 50% do custo das mudas.

Encomendados esterco e saquinhas para plantio. Técnicos da Cooxupé têm ajudado muito no planejamento e dicas de preparo das sementes. Combinado com um viveirista profissional para se responsabilizar por toda a montagem do viveiro. Mais gastos: sombrite, lonas, adubos e defensivos para tratamento das sementes.

As sementes são um capítulo à parte nesse diário... após a colheita seletiva, é feita a lavação dos frutos colhidos e o seu despolpamento para a retirada da casca e nova lavagem para remover a mucilagem que envolve a semente. Tudo isso no mesmo dia, para evitar que haja fermentação do fruto colhido. Em seguida, são deixadas para secar ao sol da manhã (preferencialmente retirar do sol à tarde para evitar que a casca que envolve a semente, chamada pergaminho, se trinque no processo de secagem).

Foram 3 dias no processo de colheita, lavação e preparo das sementes, para a quantidade que pretendemos obter.

Finalizado o processo, ainda há que se efetuar a catação das sementes menores e mal formadas (as chamadas moquinhas), bem como de algumas cascas que insistem em não sair no processo inicial. Serão muitos dias de trabalho manual. Teremos ocupação para as próximas noites!

E eis que recebo uma notícia realmente desastrosa. O proprietário da área com quem eu havia fechado o negócio roeu a corda. Simplesmente alegou que desistiu. Bons tempos em que palavra dada era palavra empenhada. Temos outros termos para descrever o ato de romper um compromisso, mas eles não seriam apropriados para esse espaço...

Agora ficamos no meio de uma decisão complicadíssima. Idealmente, o viveiro deve ser implantado em junho. Considero que estou até um pouco atrasado. Escrevo isso em 12 de junho, e ainda levaria cerca de 10 dias para preparar o espaço e finalizar a logística para receber o pessoal que faria o plantio. Já fizemos alguns investimentos, e parar agora seria realizar o prejuízo. Por outro lado, não há nem local para eu implantar o viveiro, embora muitos produtores amigos poderiam me emprestar algum cantinho de suas fazendas para isso. Realmente, esse revés não estava nos planos.

Antes de finalizar o mês, vamos atualizar nosso diário, que parece que irá terminar antes de ter começado realmente... Não conseguimos achar outras áreas dentro dos parâmetros mínimos. Apareceram algumas, mas ou estavam caras demais, ou eram localizadas em regiões muito quentes, inapropriadas para o café. Uma delas é até boa, mas não tem água.

Essas coisas são engraçadas... o proprietário garante que perfurando um poço, ali teria água suficiente. O argumento é que o poço do vizinho é muito bom, e que o vizinho tem um pequeno
córrego em sua propriedade, e que bastaria eu conversar com ele para que ele permitisse que eu retirasse água dali. Todos entendem tudo de outorgas, hidrogeologia, hidrologia e geotecnia nestas horas.

Aparentemente, vou entrar para o MST.

Atualização final do mês: decisão tomada. Vamos fazer um canteiro menor, em uma área próxima da cidade, que apresentaria custos menores. Pelo visto, daria 150mil mudas no local. Perderemos parte do investimento, mas teremos assunto pelo menos até dezembro, quando as mudas ficariam prontas – elas já estão um pouco atrasadas; o planejamento era tê-las prontas em final de novembro.

Com alguma sorte, pode aparecer alguma área legal. Se não der, vendemos as mudas e recuperamos parte do prejuízo. Alguém disse que seria fácil?